terça-feira, 16 de abril de 2013

Tragédia de amor

Tragédia de amor

Não se pode dizer que não amei a vida... Simplesmente a vivi... Mais que intensamente vivi... Cada manhã, sabor, cada beijo, paisagem, cada aroma. Passei meus dias pelo prazer, somente pelo que me fazia bem aos sentidos, pobre de quem não fazia o mesmo, e aqueles que me impediam de fazer. Caminhei pela estrada deliciosa das sensações, festas, viagens, pessoas, nada era o suficiente. Devorei a vida de uma só vez... O Não? Quem disse que ele existia? Era o Sim era meu melhor companheiro, hoje, agora, nesse momento, eram meus termos...
Esperar jamais, se não podia ter, destruía. Assim foi com Dalva. Menina doce, apaixonada por música, vivia entre cantos e murmúrios, cujos seus grandes olhos castanhos, e a belas curvas do seu corpo não me davam sossego.  Seu balanço moreno em seu vestido remendado levando a bandeja de doces todos os dias me enlouquecia.  Uma verdadeira maravilha em forma de mulher. Por que ela não me olhava? Por que nunca perguntara quem eu era. Isso era uma ofensa à minha pessoa.
Diariamente enviava esse maldito negro cujo nome me repugna até o ato de pronunciá-lo, para comprar suas delícias em meu nome, pois alguém de minha posição não poderia ser visto na rua de conversa com uma negra não acham? Sendo assim Agnaldo tinha essa responsabilidade diária. Nem gostava dos quitutes, mas da vendedora... Ao longo do tempo para minha enorme surpresa ele se aproximou da mulher que deveria ser minha, apenas eu deveria ser ele a estar no meio daquelas pernas, não ele. Amei-a no silêncio do meu orgulho, dia após dia, desejei-a todas as noites, mas ela somente tinha olhos para o homem que chegou como pedinte à minha casa. Foi alimentado, abrigado, e tornara-se servo fiel da família. Com sua fingida humildade conquistou a confiança de todos, tendo até regalias especiais diferentemente dos outros empregados como um casebre dentro das nossas propriedades, fato revoltante, precisava de um local para desenvolver os meus escritos, lá seria perfeito.
O maior golpe veio mais tarde quando ele nos veio trazendo a notícia, tenho certeza que somente para vangloriar-se nas minhas faces, eles se casariam e, graças à louca generosidade de meu pai, morariam juntos no mesmo casebre. Ali perto, nas minhas fuças, para que fosse testemunha de tudo, sim de cada minuto que ele estivesse de posse do que era meu. Já imaginava sua felicidade, mãos dadas, risos, e prazeres, tudo isso às minhas vistas. . Isso já era demais! Tinha de fazer algo e fiz!
Chegou o dia do terrível matrimônio... A dor era enorme... Encontrava-me louco, entontecido pelo ódio e álcool. Atravessei o jardim sem conseguir ver viva alma. Todos estavam nos preparos da festa. Sim uma festa para um servo que dias são esses...  Ao alcançar a pocilga que tinha como morada recebeu-me com um abraço e o sorriso falso que era habituado. Fomos até seu quarto onde terminava de aprontar-se, paletó ainda sobre a cama, gabava-se quase sem respirar sobre seu futuro, filhos, família, enquanto atrapalhava-se com os últimos botões de sua camisa... Não posso negar o prazer que tive ao ver sua cara amedrontada com o reflexo no espelho da faca em minha mão. Apenas um golpe, no pescoço, o ladrão, conquistador barato, caiu de joelhos o sangue logo começou a espalhar-se no chão, fugi antes que manchasse meus sapatos.
Ainda nervoso e desta vez melhor armado fui ate a casa da noiva mais bonita que poderia ter visto nesta vida de delícias. Estavam ela e mais duas senhoras que a auxiliavam com seu vestido, mais tarde pelos seus brados, soube ser sua mãe e avó. Já porta à dentro, a primeira aproximou-se, recebendo dois tiros, segunda ao tentar correr em minha direção, caiu com mais outros três. Então ali estava minha amada, minha querida, minha, finalmente! Seus gritos e lágrimas aumentavam ainda mais minha virilidade, enquanto satisfazia meu ardente desejo de seu corpo. Levantei-me de cima de Dalva que jazia ao chão, espancada e soluçante, olhei-a uma ultima vez, recarreguei e disparei, muitas vezes, pois ela deveria ser minha e mais de ninguém.
Não fui preso felizmente, posso dizer com sinceridade do meu arrependimento. A impulsividade foi meu grande juiz. Podia tê-la levado a outro lugar, e assim dado asas ao meu desejo de homem, podia ter aguardado outra data onde menos pessoas fossem procura-la, poderia ter sido na madrugada quem sabe. Apenas me defendi da injustiça sofrida, pela ofensa disparada ao meu coração de amante, pela humilhação diante da covardia do meu inimigo ao tomar algo que me era muito caro! Tive der ir até a igreja, suado ensanguentado, cansado, perdido, louco. Entrei, gritei com toda a energia que me restava, que não haveria mais o casamento,  o motivo e usei a ultima bala em minha cabeça.

Raphael Diogo de Oliveira Lopes – Rio de Janeiro, 16 de abril de 2013.

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