Não entendo como meus pais
conseguiam ser tão bondosos e nem a utilidade de tanta caridade. Eram rios de
dinheiro para obras de caridade, sopa para mendigos, roupas para orfanatos,
presentes de fim de ano às famílias dos empregados, cestas básicas, uma
infinidade de coisas, não faço ideia como éramos ricos jogando fora tanto
dinheiro com a ralé.
O maior absurdo de todos foi
quando eles resolveram bancar os estudos do negrinho, filho de nossa
cozinheira, com um ex-presidiário, que bêbado todo tempo ,até onde sei, sentava
a mão nos dois para lembrar quem mandava, e estava certo. O moleque idiota que
nem falava direito, vivia bisbilhotando às estantes de nossa casa, presença
incômoda e constante, queria ser advogado. Imagina um preto de terno defendendo
outros pretos bandidos como é normal em sua gente, isso é realmente algo para
se rir e assim o fiz ao me contar sobre sua ilusão enquanto contaminava mais um
pouco o ambiente de meu lar com sua “afro-presença”. Recebia toda ajuda
financeira uniforme, livros, transporte, alimentação, tudo saindo da minha
herança, diretamente, para sua utopia imbecil, chegamos ao ponto dele ganhar
uma escrivaninha igual a minha para ele por na sua senzala, ou sei lá onde ele
vivia.
Era destaque na nossa escola onde
disputávamos nota a nota quem era o melhor aluno. Eu sempre vencia... O que
posso fazer? Minha raça nasceu para pensar a dele para trabalhar a ciência
disse! Mesmo assim ele insistia... Segundo melhor aluno da escola, tinha o
respeito e a admiração dos colegas e professores, recebia os elogios que eram
para serem meus afinal era inferior a mim. Sempre que ia ressaltar meus feitos
era obrigado a escutar que ele era um batalhador, que sua família era muito
pobre, toda aquela ladainha sem sentido de gente sem visão, falsos,
sentimentalistas...
Chegou a época de ingressar na
universidade, os exames estavam perto, tínhamos os mesmos professores
particulares, dividíamos, os mesmos espaços, o mesmo banheiro isso tudo porquê
sim ele se mudou para minha casa. Meu pai disse que seria mais interessante
para nosso desempenho o estudo em conjunto, quando fui falar com minha mãe ela
se resumiu a dizer que ganharia um “irmão preto” por algum tempo, num tom de
carinho. Que tipo de pessoa doente diz que eu teria um irmão crioulo. Preferia
ter nascido de uma cadela a ter vindo de um mesmo ventre de um macaco desses.
Chegava ao ponto de me dar enjoos pela na porta de seu quarto pela manhã, ao
menos não roubou nada... O que se pode fazer não teve muito tempo para isso.
Chegou o dia do resultado todos
estavam na expectativa do resultado dele não o meu... Um absurdo! Ele veio
correndo até meu quarto no segundo andar da mansão vendo o trabalho do
jardineiro já terminado durante o dia e pensando como seria bom estar dentro da
sua filha, mais uma vez, somente para comemorar minha terceira colocação no
ranking dos classificados. Gritando louco de felicidade por ter conseguido, e para
meu maior desgosto era o primeiro. Não sei que truque sujo ele usou, mas
conseguiu... Infelizmente sua alegria, como a de qualquer um de sua estirpe,
dura pouco, ao vir me abraçar feliz por ter alcançado sua vitória tropeçou não
vi muito bem onde cambaleou e caiu pela janela. Ao menos foi o que disse a
todos, mas foi muito gostoso empurra-lo e acabar com sua presença que
empesteava o ambiente. O som de sua cabeça batendo no solo até hoje está na
minha mente e a visão do sangue que escorria
lentamente para alimentar as plantas. Corri para fingir que buscava ajuda
gritei todos vieram, contei minha estória às lágrimas de medo pelo ato
impulsivo, porém ajudaram a convencer. Não vou dizer que o nome da família não me
protegeu contra acusações... Infelizmente não morrera, mas veio a tornar-se um
vegetal horrendo e de rosto deformado, o qual me repugnava ainda mais, muito
mal piscava os olhos, até um travesseiro acabar com seu olhar cheio de ódio.