sexta-feira, 26 de abril de 2013

O Negrinho



Não entendo como meus pais conseguiam ser tão bondosos e nem a utilidade de tanta caridade. Eram rios de dinheiro para obras de caridade, sopa para mendigos, roupas para orfanatos, presentes de fim de ano às famílias dos empregados, cestas básicas, uma infinidade de coisas, não faço ideia como éramos ricos jogando fora tanto dinheiro com a ralé.
O maior absurdo de todos foi quando eles resolveram bancar os estudos do negrinho, filho de nossa cozinheira, com um ex-presidiário, que bêbado todo tempo ,até onde sei, sentava a mão nos dois para lembrar quem mandava, e estava certo. O moleque idiota que nem falava direito, vivia bisbilhotando às estantes de nossa casa, presença incômoda e constante, queria ser advogado. Imagina um preto de terno defendendo outros pretos bandidos como é normal em sua gente, isso é realmente algo para se rir e assim o fiz ao me contar sobre sua ilusão enquanto contaminava mais um pouco o ambiente de meu lar com sua “afro-presença”. Recebia toda ajuda financeira uniforme, livros, transporte, alimentação, tudo saindo da minha herança, diretamente, para sua utopia imbecil, chegamos ao ponto dele ganhar uma escrivaninha igual a minha para ele por na sua senzala, ou sei lá onde ele vivia.
Era destaque na nossa escola onde disputávamos nota a nota quem era o melhor aluno. Eu sempre vencia... O que posso fazer? Minha raça nasceu para pensar a dele para trabalhar a ciência disse! Mesmo assim ele insistia... Segundo melhor aluno da escola, tinha o respeito e a admiração dos colegas e professores, recebia os elogios que eram para serem meus afinal era inferior a mim. Sempre que ia ressaltar meus feitos era obrigado a escutar que ele era um batalhador, que sua família era muito pobre, toda aquela ladainha sem sentido de gente sem visão, falsos, sentimentalistas...
Chegou a época de ingressar na universidade, os exames estavam perto, tínhamos os mesmos professores particulares, dividíamos, os mesmos espaços, o mesmo banheiro isso tudo porquê sim ele se mudou para minha casa. Meu pai disse que seria mais interessante para nosso desempenho o estudo em conjunto, quando fui falar com minha mãe ela se resumiu a dizer que ganharia um “irmão preto” por algum tempo, num tom de carinho. Que tipo de pessoa doente diz que eu teria um irmão crioulo. Preferia ter nascido de uma cadela a ter vindo de um mesmo ventre de um macaco desses. Chegava ao ponto de me dar enjoos pela na porta de seu quarto pela manhã, ao menos não roubou nada... O que se pode fazer não teve muito tempo para isso.
Chegou o dia do resultado todos estavam na expectativa do resultado dele não o meu... Um absurdo! Ele veio correndo até meu quarto no segundo andar da mansão vendo o trabalho do jardineiro já terminado durante o dia e pensando como seria bom estar dentro da sua filha, mais uma vez, somente para comemorar minha terceira colocação no ranking dos classificados. Gritando louco de felicidade por ter conseguido, e para meu maior desgosto era o primeiro. Não sei que truque sujo ele usou, mas conseguiu... Infelizmente sua alegria, como a de qualquer um de sua estirpe, dura pouco, ao vir me abraçar feliz por ter alcançado sua vitória tropeçou não vi muito bem onde cambaleou e caiu pela janela. Ao menos foi o que disse a todos, mas foi muito gostoso empurra-lo e acabar com sua presença que empesteava o ambiente. O som de sua cabeça batendo no solo até hoje está na minha mente e a visão do  sangue que escorria lentamente para alimentar as plantas. Corri para fingir que buscava ajuda gritei todos vieram, contei minha estória às lágrimas de medo pelo ato impulsivo, porém ajudaram a convencer. Não vou dizer que o nome da família não me protegeu contra acusações... Infelizmente não morrera, mas veio a tornar-se um vegetal horrendo e de rosto deformado, o qual me repugnava ainda mais, muito mal piscava os olhos, até um travesseiro acabar com seu olhar cheio de ódio.

Um comentário:

  1. Meu Deus que "sujeitim"... Deus tá vendo coisa ruim!!! Bom texto, porém triste!!

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